Repensar a profissão Divulgação - publicada em 23. 12. 2016 - atualizada 14h48 Sem bom jornalismo todos perdem, pois a produção da notícia só é possível a partir do momento em que se conhece o que são as coisas, seus objetos e sentido. E isso – é inegável - está em falta
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Diógenes (Didi) Pasqualini

Há mais de 25 anos, quando o padrão digital caminhava, ainda, a passos lentos, comentei com o amigo e repórter fotográfico Fabrício Ferreira - que à época estava na Folha de São Paulo - que via com muita preocupação o futuro de sua profissão. Não tinha noção clara ainda de qual seria o impacto, mas já era possível perceber que levaria à mais profunda banalização da imagem. Alguns anos mais tarde falei a amigos que a minha profissão teria abalos profundos com a mudança das ferramentas de produção da notícia e que o caminho seria idêntico ao da imagem. Este texto busca falar de coisas que se misturam a nossa compulsão de consumo, superficialidade e descarte ao relacioná-los também ao jornalismo. Assim, resgatar alguns aspectos do passado podem atualizar algumas dificuldades para entendermos nosso mundo moderno e para onde nosso “corpinho” está sendo levado. Sim, todo este excesso nos está fazendo mal, e muitas das doenças, fadigas, neuroses e outras caminham por aí. Entender um pouco mais sobre o que estamos consumindo é muito importante. O mês é bem propício para estas entradas, já que nosso sentido está mais apurado com as festas de final de ano.

Vamos lembrar um pouco como nos relacionávamos com a imagem. Na fotografia, era muito comum a gente mostrar aos amigos, parentes, filhos os nossos álbuns. Ali estavam as ligações afetivas, as memórias, o culto aos antepassados e o apego apaixonado a lugares e fatos especiais que a gente guardava. Trazer à luz tudo isso era motivo de entretenimento e ainda uma pedagogia entre os mais novos. Aprendia-se muito com as imagens ao relacionar a história, fatos e personagens. Hoje apontamos o celular para tudo e todos sem mesmo saber ao certo o que estamos fazendo. São milhares de fotos que nem mesmo fazem sentido, não se relacionam, não têm, para ser mais atual, links.

Com o jornalismo o caminho é bem parecido. Creio que com o fim da obrigatoriedade de uma formação específica para o exercício da profissão e com o espaço virtual inundado de informação consolidou-se nossa perda de sensibilidade para a leitura mais densa. Não gosto muito deste debate que coloca jornalismo x formação em discussão. Até porque quando falávamos sobre a necessidade do diploma a justificativa sempre foi delicada - a liberdade de expressão. Isso é um mal-entendido histórico. Mas o jornalista profissional transmite outro olhar da notícia. Faz-se uma história, há narrativa de toda a estrutura daquilo que se está reportando, estabelece-se profunda relação com os fatos e nos colocamos a pensar em seus aspectos e todo o universo daquilo que é reportado. Temos e estamos perdendo relação com a verdade, ética, moral e o compromisso com a informação. Hoje, já precisamos de outros filtros, de saber onde está a “verdade”. Existem mais boatos do que notícias circulando pela rede, e não podemos mais nos relacionar com a informação com a mesma pureza de antes.

Mas, para onde vai a profissão? Há muito sentimos falta de boas reportagens, belas histórias e fatos que nos são contados e não voltam a serem explorados. Ficamos sem respostas ou não sabemos o que aconteceu depois da primeira divulgação. Como diziam alguns professores, o jornalismo tem de ter cheiro de asfalto, terra, mato. Hoje isso está acabando, tudo ficou mais “clean”. Talvez as empresas fomentem esta necessidade de colocar a produção à frente da boa reportagem e as redes estejam na frente quando o assunto é quantidade. Não há como competir com a hiperatividade em rede. Sem bom jornalismo, creio que todos perdem, pois a produção da notícia - da forma que entendo - só é possível a partir do momento em que se conhece o que são as coisas, seus objetos e sentido. E isso – é inegável - está em falta.

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