Mulher Divulgação - publicada em 9. 6. 2016 - atualizada 9h50 A discussão corpo/sexualidade ainda está em fase mais rudimentar do que podemos imaginar, e a punição ainda é o método de que dispomos para fazer refletir que precisamos nos corrigir
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Por Diógenes (Didi) Pasqualini

Há um bom tempo, eu tinha vontade de escrever sobre este tema, mas faltava oportunidade ou “incentivo”. Parece que agora é bastante oportuno rabiscar alguma coisa. Faz algumas décadas, desde a universidade, que a gente debate na publicidade a cultura da mulher objeto e o sentido do prazer e dominação masculina que ela ajuda a produzir. Antes mesmo da polêmica envolvendo jovem vítima no Rio, discutíamos o tema em São Paulo, onde um grupo de universitárias fazia protesto contra a crescente e cristalizada cultura do estupro. Confesso que muitas vezes passa batido, por mais que tenhamos ferramentas para ampliar e enxergar como somos machistas e tratamos a mulher como objeto; mesmo que “sem querer”, na onda, soltamos aquelas piadinhas no cotidiano e damos continuidade à discriminação. Mas creio que nada se compara àquilo que a publicidade vende e como isso, ano após ano, campanha após campanha, endossa esta cultura.

Comento com frequência com amigos a empolgação e felicidade que tenho ao encontrar grupos de garotas em meio às trilhas que fazemos de bicicleta. A mais recente, no caminho dos Anjos em Minas Gerais, pedalamos por quase 200 quilômetros, e entre dezenas de homens vimos algumas corajosas mulheres. Para a gente, fica a sensação do uso de uma liberdade tímida, assustada, quase que implorando pela tolerância masculina o direito de ocupar os mesmos espaços. Isso, ao mesmo tempo, nos deixa com esperança de que estes gestos possam dialogar e ter consequências que vão além de leis, dia em homenagem e outras ações políticas e jurídicas que considero - desculpem - mais cosméticas do que realmente geradoras de algo em favor da mulher. A coisa tem mesmo de acontecer no ativismo por uma causa.

Sem isso, acho tudo muito falso e oportuno, pois nós alimentamos, mesmo que às vezes sem querer, uma divisão, quando na verdade o que precisamos é entender que existe o problema social comportamental gravíssimo, que de forma contínua fomenta a exploração, prazer e poder masculinos. E isso está enraizado na cultura, governa nosso cotidiano, administra aquilo que pensamos. Mas os motivos pelos quais reflito que leis e datas sejam paliativas parte do entendimento de que a concepção das liberdades não é jurídica, e sim, está inserida no indivíduo; assim, não adianta punir, lembrar o dia, oferecer uma flor, mas a gente aprender/apreender a exercer e permitir os direitos fundamentais do outro. Será que temos concepção heterogênea das liberdades? Conseguimos enxergar a natureza complexa que tudo isso representa?

Talvez se a gente pensar no lado mais perverso de tudo isso ficaremos diante da relação corpo, violação e prazer; e como “o nosso prazer” pode não estar em comum acordo com os desejos e vontades de quem tenta nos dizer NÃO. A discussão corpo/sexualidade ainda está em fase mais rudimentar do que podemos imaginar, e a punição ainda é o método de que dispomos para fazer refletir que precisamos nos corrigir. Por esta linha muito tênue que tratamos aqui, o que realmente temos de pensar é que comunicação e moda acabam nos hierarquizando e modelando nossos costumes. Incentivos na publicidade não faltam, e a cada dia formam-se filas de interessados (as) em vender seus corpos e assim ajudar a reafirmar a cultura do objeto, descarte, prazer e moda.

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