Corrupção a la carte Divulgação - publicada em 27. 9. 2011 - atualizada 15h16 É muito difícil desatar os nós de uma rede nefasta cujo vínculo gera a imobilidade de ação e que se situa na fronteira entre o homem e a ética. Talvez isso justifique, em parte, o sentimento de atração e repulsa à política
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Revoltas são ferramentas sociais importantes, pois devolvem a confiança às pessoas e, assim, distinguem seu povo.

Por Diógenes Pasqualini

A política tem tido má fama, e a “corrupção” tem sido seu sinônimo. Ambas são objetos atraentes para análise pelo altíssimo grau de interesse que despertam na sociedade, principalmente quando um caso novo é divulgado pela mídia. Basta observar os comentários de leitores nos jornais e na internet, nos portais de notícias e blogs.

O acontecimento mais recente é o da absolvição da deputada federal Jaqueline Roriz (PMN-DF), em votação secreta pela Câmara dos Deputados por 265 votos a 166. A corrupção é uma janela que mostra uma paisagem muito próxima a nós e não muito distante de Brasília. É muito difícil desatar os nós de uma rede nefasta cujo vínculo gera a imobilidade de ação e que se situa na fronteira entre o homem e a ética. Talvez isso justifique, em parte, o sentimento de atração e repulsa à política.

Creio que a corrupção não deva ser tratada parcialmente, como simplesmente se habitasse exclusivamente em uma classe (política), sob pena de se fechar o foco em razão da espetacularização dos meios de comunicação, só para lembrar Guy Debord. Dois pontos são importantes nesta conversa: o aumento da descrença da população, observado em vários países do mundo, com o político e o vazio ideológico em curso, que impede a mobilização contrária à corrupção, pois não há motivação que assegure que este ou aquele partido, este ou aquele grupo venha a corresponder às expectativas do eleitorado em geral.

A elite política não consegue fazer com que a maior parte da população deixe de ver a política como abstração. As pesquisas ajudam a reforçar esta hipótese quando o entrevistado responde que vê o trabalho do político como de pouca utilidade para a sociedade. Diante disso, a experiência democrática no país, apesar de algumas conquistas sociais e econômicas, não tem impedido a manutenção de um vício histórico: a corrupção. Pelo contrário, a sensação que se tem é que ela aumentou significativamente. Se analisarmos da era Collor a Lula, para fazermos um recorte de pouco mais de 20 anos, fica fácil perceber como ela é recorrente e se mantém incrustada no país.

Importante ressaltar, entretanto, que a discussão sobre a corrupção não deve focalizar o “outro”, aquele que é alvo. Falamos, apontamos, criticamos o político como se ele fosse isolado da sociedade.

Devemos perceber que a predisposição à corrupção tem graus distintos, e pode estar ou não em cada pessoa. O distanciamento ou aproximação é um exercício constante. Moral, ética, cidadania etc. são conceitos que podem guiar esta conversa mais adequadamente.

Um trecho de Roberto Espósito, em seu livro Tercera persona, brinda-nos com uma história interessante que ilustra a morte no próprio corpo. A metáfora, aqui, é sobre a política e sua morte. Espósito diz que as formigas australianas da espécie Bulldog dividem-se em cabeça e cauda e travam luta própria até a morte ou até serem separadas por outras formigas, onde cauda e mandíbula defendem e atacam um mesmo corpo. A corrupção é esta dupla morte no mesmo indivíduo, em seu impulso pela ganância.

Helena Katz, em seu artigo Desencantamento como Bibliografia, reflete sobre a decepção do eleitor ao não ter sua expectativa atendida e questiona se devemos levar nossas convicções políticas para o cemitério ou continuar a lutar. O interessante na leitura de Katz é que a manutenção da crença carece de uma dose extra da libertação de culpas. “O confortável no sentimento de ser trapaceado ou traído é poder pensar na tragédia acontecida livre de sentir ter alguma culpa nela”. Talvez seja este um alento que nós eleitores, sempre preocupados em “acertar o voto”, tenhamos para repensar o processo eleitoral.

Para finalizar, não podemos esquecer que a busca pela liberdade e pela democracia têm sido, ao longo dos séculos, justificativa para o significado do desenvolvimento. Liberdade e democracia são a base para o progresso das nações. As revoltas são ferramentas sociais importantes, pois devolvem a confiança às pessoas e, assim, distinguem seu povo. Podemos perceber que, nos países mais desenvolvidos, com menor índice de corrupção e democracia consolidada, os movimentos sociais, ao longo da história, estiveram mais presentes.

Nossa cultura carece de lutas por uma política que atenda de forma mais justa a todas as classes sociais e que a corrupção seja menos tolerada. Junte-se a isso uma discussão urgente sobre a segregação racial e espacial, política governamental melhor conduzida, necessidade de avanço nos programas sociais, na educação etc. Essas questões não podem constituir um modelo metodizado que sirva aos programas de governo em campanhas eleitorais, mas que provoque mudança e influencie a vida das pessoas.

Bibliografia
ESPÓSITO, Roberto (2009). Tercera persona: política de la vida y filosofía de lo impersonal. Buenos Aires: Amorrortu. KATZ, Helena (2007). Desencantamento como Bibliografia. São Paulo: Quadra Pessoas e Ideias. DEBORD, Guy (2003). A sociedade do espetáculo. São Paulo: E-bookBrasil.

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