O tatame é o limite por Alessandra Morgado - publicada em 14. 4. 2011 - atualizada 14h24 Araras é considerada centro de referência na formação de judocas e já tem nomes na Seleção Brasileira Sub-17 e Sub-20 disputando no exterior.
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Sode-seoi-nague é golpe que lança adversário no chão

Os sorrisos, às vezes enfeitados com aparelhos, iluminam rostos juvenis de quem ainda gosta de brincar ou pregar peças nos amigos. Mas, quando o assunto é o tatame, habitat de um trio de ararenses, a história é outra. Eles seguem a disciplina de quatro horas diárias de treinos, abdicam das baladas, lanchonetes e encontros com os amigos aos finais de semana, além de ralarem na escola para compensar o tempo que passam em competições.

Os três jovens estão na Seleção Brasileira de Judô Sub-17 e Sub-20. Esse é o espírito que faz da cidade de Araras um celeiro de promessas para o judô nacional. Nathália Orpinelli Mercadante, 15, Pamela Pastorello de Souza, 15, a Coxinha, e Luiz Augusto Beretta Filho, 15, o Gutinho, atletas da Associação Marcos Mercadante de Judô, não trocam a disciplina do tatame pelos atrativos da idade. “O judô é uma filosofia de vida e devo muito do que sou a ele”, resume Gutinho.  

Essa dedicação deu frutos: os três embarcaram no início de março para a Europa, onde participam de competições internacionais e devem conhecer o nível de atletas do mundo inteiro e, por que não, conhecer o próprio mundo melhor. Afinal, que adolescente você conhece que já esteve na Alemanha, Portugal, Itália, Rússia, República Tcheca e Romênia? É pouco?! Para eles, sim. Esses judocas querem mais. E o que dão em troca é dedicação, seriedade e disciplina.

Nathália praticamente “nasceu no tatame”. Ela é filha do também judoca Marcos Elias Mercadante, 38, faixa preta 5º Dan, professor, diretor de competição da Federação Paulista e dono da academia. Desde os quatro anos ela participa de competições que lhe propiciam colecionar medalhas e troféus importantes, tão importantes que a levaram para o Japão no final do ano passado. Agora, ela volta ao Circuito Europeu na Alemanha e em Portugal, entre os dias 13 de março e 2 de abril. Depois, sem desfazer as malas, segue em abril para outra categoria do Circuito Europeu, que será disputado na Itália e na Rússia.

Coxinha e Gutinho seguem para a primeira experiência internacional na República Tcheca e Romênia. Coxinha vai com o avô e o rapaz experimenta o frio na barriga de viajar sozinho. Eles sabem que vão encontrar atletas muito bons e pretendem aproveitar a oportunidade para crescer.

Para conquistarem o direito de participar do Circuito Europeu, eles passaram por uma seletiva nacional onde o primeiro, segundo e terceiro lugares ganharam o direito de seguir para a competição internacional, mas apenas os dois primeiros tinham as despesas pagas. Gutinho ficou em terceiro, mas decidiu ir com o dinheiro da Bolsa-Talento e a ajuda do pai.

“Meus amigos podem dizer que fazem isso ou aquilo, mas quem vai dizer que já foi à República Tcheca ou à Rússia?”, diz o rapaz, que há dez anos fez do quimono seu traje oficial. Decidido a mostrar serviço fora do país, o judoca acredita que pode aprender muito em contato com atletas de outras nações com mais tradição no esporte. “Força acho que tenho, mas ainda sou receoso na hora de soltar os golpes. Vamos ver...”, diz Guto, enquanto se prepara para mais 3 horas de treino, que havia começado no início da tarde de sexta-feira e só deveria terminar às 21h.

Já Coxinha, a mais risonha das judocas, espera encontrar rivais com “cara de buldogue”. Ela conta que começou no esporte para acompanhar o irmão. “Ele parou e eu estou há quatro anos no tatame.”

O sonho olímpico

Marcos Mercadante trabalha há anos para transformar a cidade de Araras em um centro de referência na formação de judocas. Da última seletiva que a academia participou, cinco dos sete atletas conseguiram vagas. “Eu tinha o sonho de ser um atleta olímpico, mas não consegui. Então, resolvi ser treinador de atletas olímpicos”, conta ele, sem tirar os olhos dos pupilos.

O sonho de Marcos se expande cada vez que um de seus atletas se aperfeiçoa ou uma criança cheia de brilho é agregada ao projeto social mantido pela academia. Quem tiver o judô no sangue tem chance de treinar com uma bolsa da academia ou ainda receber a Bolsa-Talento Esportivo do governo estadual, que paga R$ 415 por mês como incentivo aos jovens atletas.

Apoio familiar

A família é sempre o apoio de jovens atletas, que se dividem entre a escola e os treinos. Num esporte tão competitivo como o judô, muitas vezes o resultado pode demorar a chegar. No caso de Nathália, o pai e também treinador tinha experiência e garante que nunca pressionou a filha. “Ela treina desde os três anos, com quatro  já participava de festivais na região e quando perdia chorava.” O currículo da garota é extenso e somente no ano passado ela foi ouro no Troféu Brasil, Campeonato Brasileiro, Panamericano, Aberto da Alemanha e Copa Revelação. “Ao vencer a Copa Revelação, Nathália ganhou 15 dias de estágio internacional no Japão. Ela é nova e poderá participar de duas ou três Olimpíadas”, diz o treinador. A garota também aposta no clima olímpico, mas admite que é difícil. “São 22 vagas no masculino e 14 no feminino”, disse ela.

Na casa de Guto o clima é de orgulho e alegria pela conquista do filho de Leidiane Beretta, 33, e Luiz Augusto. A mãe conta que está fazendo um empréstimo para conseguir custear a viagem de Gutinho. “Ele é muito esforçado mesmo. É um filho que não dá trabalho, não falta do judô e agora está na seleção”, contou emocionada.

Leidiane disse que tentou buscar patrocínios, porém as empresas respondiam que apenas o futebol é que traz retorno. “Resolvemos ajudar porque lá fora o treinamento será muito diferente e ele vai conviver com atletas. Além do Judô, vai ser uma experiência de vida.”

O rapaz sempre sentiu o apoio da família e não pensa em parar tão cedo. “Meu pai é mecânico e minha mãe estudante universitária. Eles não me cobram resultado, mas que treine e me esforce”, conta o estudante do 1º ano do ensino médio.

A história da Coxinha

Pamela é chamada de Coxinha porque na primeira competição que disputou ou iria disputar virou uma lenda na academia, onde está há quatro anos. Marcos disse que a menina, pouco antes dos combates, apareceu com refrigerante e uma coxinha. “Eu falei para ela, você vai passar mal...”, disse Marcos.

A menina inexperiente mandou o lanche para o estômago e foi para o tatame. É claro que passou mal, vomitou e foi desclassificada. Daí, o apelido e a lição. “Nunca mais como nada na hora da competição”, conta sorrindo da própria história como faz com as situações difíceis que encontra pela vida. Aí está outra lição do judô: não se pode vencer sempre. Às vezes, o aprendizado pode vir com a desclassificação, mas o tatame continua lá, pronto para te desafiar.

Serviço
Associação Marcos Mercadante de Judô 
Rua das Esmeraldas, 311, Jardim Santa Cruz - Araras - fone 19 3544.3033.

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