Plural por Claudia Canto - publicada em 6. 12. 2010 - atualizada 14h9 A produção nacional não se restringe ao que assistimos nas salas de exibição, basta sentar na poltrona e ir além.
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Encontros semanais do grupo Kino Olho.


Portas gigantes se abrem, o público entra, se acomoda nas confortáveis poltronas, apagam-se as luzes.Você espera assistir a quê? Esse é o desafio do cinema nacional hoje, que com produções diversificadas, de cineastas com propostas e motivações diferentes, não consegue chegar às salas de cinema. É o que avalia a professora doutora em Ciências da Comunicação pela ECA - USP, Verônica Ferreira Dias, para quem, além disso, as dificuldades também existem “pelo hábito e educação que o público adquiriu ao longo dos anos em consumir filmes estrangeiros, especialmente, norte-americanos”.


Quanto às duas últimas produções que foram recordes de bilheteria, “Nosso Lar” e “Tropa de Elite 2”, filmes que contaram com um alto orçamento e ampla distribuição, Verônica observa que “o país também pode produzir sucessos de bilheteria”, mesmo que seja “nos moldes dos lançamentos estrangeiros”. No entanto, além desses dois títulos e muitos outros que alcançaram visibilidade, a produção nacional é composta por uma diversidade de estilo ao qual Verônica definiria como “plural”. Desta forma, tomar apenas essas duas produções como referência no cinema nacional seria um equívoco, pois se estaria “limitando e empobrecendo as potencialidades do cinema”.


Em incursão pelo interior da cena independente, há inspiração e ação suficientes movendo claquetes que demarcam cenas. “Para que manipular se as coisas estão lá?”, dizia Roberto Rossellini, aclamado cineasta do Neo-realismo italiano. Assim, um grupo de artistas do interior paulista encontrou a resposta para como começar a fazer seus filmes. Arranjaram uma câmera e foram à procura de histórias interessantes que poderiam ter como locação os lugares de Rio Claro. Inspirados nesse olhar nasceu um novo e autêntico estilo de se fazer cinema, o chamado Cinema Caipira.


“Na medida em que o caipira tenta imitar o indivíduo da metrópole ele acaba fazendo uma ‘gambiarra’, uma improvisação. Desse ponto de vista, nasceu o nosso cinema, da ingenuidade do caipira, dessa questão de transformar o simples em algo especial”, coloca João Paulo Miranda Maria, cineasta e mentor do estilo que nasceu junto com o grupo Kino Olho.


A ideia do Kino Olho começou a partir da vontade de João Paulo, formado em cinema na Universidade Estácio de Sá no Rio de Janeiro e morador de Rio Claro, em formar um grupo de cinema independente e que, além de produzir filmes, tivesse um estilo cinematográfico próprio. A partir do cenário dado, típico de uma cidade do interior paulista, e da figura do caipira, o grupo começou a se aprofundar na linguagem do cinema, realizando exercícios semanais com poucos planos. A esses filmes que valorizam mais o processo do que o resultado final, João Paulo deu o nome de filmes-ensaios. Para alcançar maior público, a Internet tornou-se uma excelente opção, tanto que para asssitir aos filmes-ensaios do grupo basta acessar kinoolho.blogspot.com


Pertencimento

Os moradores da cidade, quando veem as paisagens adquirirem contornos cinematográficos, demoram a acreditar, mas ao se reconhecerem, se sentem representados. “Eu conheço aquele local, mas nossa, como ele está diferente. Eu não via esse lugar desse jeito, parece mais bonito”. João Paulo conta que essa foi a primeira impressão das pessoas que assistiram aos filmes do Kino Olho pela Internet e ainda revela o segredo: “os elementos estão ao nosso redor, basta apenas organizá-los de uma forma artística”.


Se basta um olhar para tudo se tornar realidade, o Kino Olho permanece de olhos bem abertos desde 2008, ano do primeiro vídeo do grupo, o documentário “Liberdade de Viver”. A vontade de produzir começou a adquirir proporções ainda maiores, até que em 2009, o grupo ganhou o primeiro lugar na competição internacional “Mobile Phone Movie Competition”, promovida pela CNN International, com o curta “A Girl and a Gun”, produzido com uma câmera de celular.

Atualmente, o grupo trabalha para formar novos realizadores em audiovisual em reuniões semanais no Centro Cultural Roberto Palmari, Rio Claro, que servem para exercitar a parte técnica do cinema e orientar novos projetos. Para cada curta existe um número como título, por ordem de produção: Kino-Olho n.1, n.2 e assim sucessivamente até chegar a noventa vídeos. E não faltam histórias para a equipe do Kino Olho. Paralelo, eles mantém parceria com o arquivo público para a realização de documentários e uma revista teórica chamada “Cinema Caipira”, com artigos escritos pelos integrantes do grupo e pesquisadores de cinema.

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